sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Antenas!

Um dia conversando com um louco eu lhe ouvi dizer algo sobre as antenas que se penduravam e viviam sobre as casas. Dizia ele que todas elas eram aparelhos que captavam a voz de outras pessoas e repassavam tal voz para nós, meros mortais, instalando-a em nossas mentes, a fim de nos controlar. Era tido mesmo como um louco pelos outros. Não poderia haver sentido naquilo. Eram simples antenas de TV. Afinal de contas, que mal poderiam vir a causar?

Senhoras e senhores apresento-lhes a mídia!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Elias



Elias, um homem diferente de mim, mas que ao mesmo tempo conservava em si as características que rodeavam minha alma. Pregava um tipo de culto à vida. De diversão aqui e agora. "Onde mais, senão agora, para que as coisas todas aconteçam de forma mais pura, simples e completa?", dizia ele. Elias vivia como um animal selvagem solto no meio de um zoológico. Via e contemplava a coragem de todos aqueles bichos, presos contra a vontade em jaulas que nunca comportariam o espaço necessário para suas próprias vidas. Admirava os que tentavam escapar. E admirava ainda mais aqueles que mesmo infelizes continuavam a viver sob a custódia do destino. Para esses, pensava ele, era necessária muita coragem para enfrentar o dia-a-dia cinzento. "Acho que eles não percebem a si mesmos.", foi o que me confessou certa vez a respeito desses animais. Realmente não parecia haver distinção, nesse ponto de vista, entre homem e animal. A vida para estes era sempre uma garantia, e a morte pelo contrário, parecia sempre algo muito distante, quase que inalcansável. Haveria de chegar a hora em que eles encontrariam a tão sonhada luz no fim do túnel. Uma pena, no entanto, achar que ela estaria depois da morte. "Não faz sentido, a morte não nos diz nada para depois, apenas para agora!". Elias mostrou-me o quanto é possível surpreender a outros e a si mesmo a todo momento. Que nada é estático como parece. "Se você não acredita em mim, pense na ciência. A Física já tem evidências de que as menores partes da matéria são de fato móveis. Por que então não podemos dizer o mesmo de nós?". Era um ponto a se pensar. Elias vinha de outra cultura. Era realmente fascinante. Parecia inspirar o que há de melhor em tudo e em todos. E nisso eu o admirava. Podia me ver nele, e ele certamente se via em mim. Assim como se via em todos. "Tudo ao meu redor reflete a mim mesmo. Nada escapa ileso ao meu olhar sempre cheio de energia. Mesmo que seja ruim pra mim."
Um dia, Elias teve que se despedir de mim. E eu apenas o abracei fortemente, segurando seu peito contra o meu, e sentindo seu coração bater dentro de mim. Foi um abraço que me deu certeza de que o veria novamente e de que ele certamente estaria comigo para sempre.

SEGUNDA FEIRA


Segunda-feira chegou. Nada mais perfeito do que as segundas-feiras para começar aquilo que nunca se começou. É o dia em que todas as promessas supostamente deveriam começar. É o dia em que a ressaca moral diante dos desejos postergados ataca-nos com contundência. E o que se fez todo esse tempo que não se deixou permitir o desejo de se tornar uma realidade? Talvez o medo de mudar. De enfrentar variadas pressões. Medo do risco de que outro sentimento venha a tomar posse do corpo. E crie insatisfação. E uma vez instaurada, torna-se impossível voltar a ser o que era antes. Segunda feira! As horas vão passando e apenas uma palavra torna-se ordem do dia: procrastinação. Ao final do dia constata-se estar muito cansado para mudanças. E assim segue a semana. Até a próxima segunda-feira, quem sabe...

domingo, 19 de agosto de 2007

Sobre os problemas de comunicação

Conversando ele percebeu o que, para ele, há de mais intrigante e também fascinante sobre a mentalidade humana: a individualidade. Conversa após conversa ele começou a se questionar: "Como eu posso ter certeza que meu interlocutor entendeu o que eu quis dizer, sendo que na verdade, nunca saberemos se ele de fato entendeu do mesmo jeito que eu?"
Era uma pergunta relevante para ele, pois ao seu ver, uma resposta para esse problema seria a chave para que não houvesse mais desentendimentos e ambiguidade em todo e qualquer diálogo. Pensava com ele mesmo que a explicação era nada mais nada menos que a reestruturação de um discurso, mantendo-se apenas a idéia principal a fim de que o outro concorde com você. Se a explicação fosse carente de seu sentido original - pensava ele - não haveria acordo entre as partes que dialogam.
No fundo porém algo ainda o incomodava. Pensava consigo: "Se de fato entederam a mesmíssima coisa que eu entendi (ou quis dizer), isso nós nunca saberemos."

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Domingo em Família

Finalmente chegou o domingo! O dia em que toda a família se reúne e todas as histórias e casos importantes ou não são colocados em dia. Tudo isso é claro, celebrado por uma bela refeição de almoço - que tem a função de ser o grande clímax do evento familiar. Pais, mães e filhos; avôs, avós e netos. Todos ali. Todos comendo e bebendo. Debatendo se Fulano já se casou com Fulana. Ou se o filho de Beltrana, que estuda em outro estado, está gostando da faculdade que faz,e por que diabos ele nao pode vir a esta ocasião. Enfim, são assuntos dos mais variados. Rolam antes, durante e depois da apreciação do prato do dia. Em todas essas performances teatrais, só o que muda são os atores.

domingo, 12 de agosto de 2007

Caminhada

Andava pelas ruas à noite, divagando sozinho sobre uma infinidade de assuntos. Aparentava um cansaço estranho, que ao mesmo tempo lhe drenava suas energias e lhe dava inspiração e vontade. Vestia-se como um jovem qualquer após uma tarde de futebol com os amigos, seguido de um bom lanche e uma rápida descontraída. Voltava só, e na rua do seu bairro - uma espécie de condomínio aberto com pequenas praças entre suas ruas, fazendo dele um lugar ideal para a parte rica da sociedade se "defender" da dura realidade do mundo - avistou dois rapazes. Era um dia de festa, uma cantora famosa havia se apresentado na cidade, num show que mobilizou milhares de pessoas aficcionadas por mais uma dentre essas várias novas maneiras de se colocar em suspensão as regras sociais. Dois rapazes, e ambos passaram a olhar para trás desconfiados. Ambos viram nele uma ameaça. Ambos sentiram medo. Mas por quê? Qual o motivo do medo? Ele também era um morador; eles não sabiam disso. Era tarde, e a rua sem saída com uma pracinha no meio reforçada com um guarda pago para ficar ali, observando a rua e "protegendo" seus moradores, nao parecia um lugar tão seguro quanto era durante o dia. Eles ficaram por um tempo receosos. Mas foi somente porque ele também tinha medo. Enquanto caminhava a poucos metros atrás deles. Equanto passava por eles. Ele sentiu medo. E o medo foi recíproco. E sempre é assim, porque nunca se sabe o que uma pessoa é capaz de fazer diante de uma situação que a ameace.